sábado, 9 de janeiro de 2010
Antonio Fagundes fala sobre intimidades
Aquelas mulheres que só dizem não

Aquelas mulheres que só dizem não
Peça de Neil LaBute, que estreou no Rio, expõe o confronto entre um homem e quatro ex-namoradas cheias de mágoa
Roberta Pennafort
Um homem, quatro mulheres e uma mistureba de sentimentos sufocados ao longo de muitos anos. É o material de Aquelas Mulheres, mais uma peça do norte-americano Neil LaBute trazida para nossos palcos. Some Girl(s) passou pelo West End londrino e pela Broadway, respectivamente com David Schwimmer (o Ross de Friends) e Eric McComarck (o Will de Will & Grace) no papel masculino, e estreou ontem na sala 1 do Teatro Fashion Mall, no Rio, tendo no ator Pedro Brício a figura central. "O personagem é emocionalmente muito interessante, é um cara imaturo, tem algumas obsessões. O texto de LaBute é muito seco, preciso, não é poético. Pode ter uma leitura francamente cômica, mas tem também o lado ácido", explica Brício. A escolha do ator foi de Flávio R. Tambellini, que, como produtor, havia trabalhado com ele no filme A Falta Que nos Move, de Christiane Jatahy.Esta é a primeira direção teatral de Tambellini, produtor de filmes como Terra Estrangeira, Eu Tu Eles e Carandiru e diretor de Bufo & Spallanzani (em maio ele planeja lançar seu terceiro longa, Malu de Bicicleta, adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva). O projeto vem de três anos. "Estava com vontade de dirigir teatro, mas queria uma peça de texto, não de pirotecnia. No texto de LaBute, uma coisa que me chama a atenção é que sempre descubro algo novo, mesmo depois de ler 400 vezes. Minha opção foi fazer com humor, mas pela situação, e não pela atuação", conta Tabellini.A situação é mesmo sui generis: aos 30 e poucos anos, o cara (the guy), um professor e escritor que começa a deslanchar, está prestes a se casar. Decide procurar quatro ex-namoradas e rediscutir a relação. Larissa Maciel (em sua estreia nos palcos do Rio, depois da minissérie Maysa - Quando Fala o Coração) é a namoradinha de colégio, hoje casada, mãe, careta. Paula Braun, com quem ele teve um relacionamento bem sexual, é livre, pós-hippie, curte a vida. Lorena Silva vive uma mulher poderosa, bem-sucedida profissionalmente, que um dia foi sua amante. Luiza Mariani, talvez aquela com quem o cara teve a maior afinidade. Ele abandonou a todos, e agora as convoca a conversar, cada qual em sua cidade, em impessoais quartos de hotel. "São mulheres arquetípicas americanas. Não quis abrasileirar", conta o diretor.Inicialmente cordiais, os encontros acabam marcados por mágoas, contradições, demonstrações de crueldade, mesquinharia, desamor, individualismo exacerbado, dificuldade de se entregar ao outro sem reservas. É o universo de LaBute, que oferece um espelho para a plateia se olhar e se perceber. Sua visão sobre seus contemporâneos é impiedosa, não poupa ninguém.É o que o elenco foi descobrindo ao longo de dois meses de ensaios. Nenhum deles teve oportunidade de assistir a montagens de LaBute no Brasil (como A Gorda, com Fabiana Karla, e Restos, com Antônio Fagundes) - os atores só o conheciam do cinema (Na Companhia dos Homens, A Enfermeira Betty). "A minha personagem é uma mulher no limite, quase explodindo, que acaba tendo reações extremadas", informa Larissa. "LaBute é um tanto cínico para falar de relacionamentos", garante Paula Braun, outra atriz que também estreia em teatro no Rio. Em certo momento, o cara é chamado de "terrorista emocional" por uma das mulheres, o que parece fazer todo sentido ao fim da peça. Aquelas Mulheres fica por nove semanas no Fashion Mall e depois deve seguir para São Paulo.
Serviço
Aquelas Mulheres. 90 min. 16 anos. Teatro Fashion Mall. Estrada da Gávea, 899, São Conrado, (21) 3322-2495. 5.ª a sáb., 21h30; com., 20 h. R$ 60 e R$ 70 (sáb. e dom.). Até 28/2
Jornal O Estado de S. Paulo de 9 de janeiro de 2010 (Há 162 dias sob CENSURA )